Ao assinalar os 31 anos da Heroica Resistência Camponesa de Santa Elina, a Comissão Nacional das Ligas de Camponeses Pobres (LCP) denunciou os ataques convergentes do latifúndio, da extrema direita e do velho Estado brasileiro contra a Revolução Agrária em curso no País, caracteriza as eleições como uma farsa destinada a perpetuar a velha ordem e conclama as massas a boicotá-las. Na mesma declaração, afirmou ainda que “a luta pela terra no Brasil tem sido uma verdadeira guerra continuada secularmente, mas carente de uma direção científica, direção que hoje o movimento camponês revolucionário compreende e assume com firmeza”.
A campanha de criminalização reúne ataques difundidos pela propaganda bolsonarista e seus vínculos internacionais; a peça eleitoral em que o ex-comandante da Polícia Militar de Rondônia (PM-RO) Régis Braguin dispara contra a sigla da LCP; a Operação “Godos”, que mantém encarcerada há mais de nove meses a advogada popular Lenir Correia Coelho; e, segundo a organização, a atuação do Incra-RO em negociatas com terras.

A nota saúda os atos, reuniões, assembleias e missões de solidariedade realizados em memória da Batalha de Santa Elina e afirma que “a magnitude, sucessão e convergência dos ataques do latifúndio, da extrema direita e do velho Estado” comprovam que a luta secular dos camponeses pobres pela terra “nunca parou um só instante”.
Mesmo sob a repressão sistemática das forças policiais e da guaxebagem – termo empregado para designar a pistolagem a soldo do latifúndio –, com assassinatos de dirigentes, chacinas, prisões, condenações arbitrárias, perseguição de apoiadores e criminalização das organizações camponesas, a luta, afirma a LCP, “marcha em frente firme e inquebrantável”, destruindo o latifúndio parte por parte e conquistando a terra palmo a palmo.
“Se nos atacam assim é porque seus lacaios fracassam”
Entre os ataques mais recentes, a declaração destaca um texto publicado em 21 de agosto pelo Jornal da Cidade Online (JCO), com o título “Liga dos Camponeses Pobres toca o terror em Rondônia com extrema violência”. A publicação repete acusações em defesa da família do latifundiário Antônio Martins dos Santos, o “Galo Velho”, e apresenta como propriedade particular as terras da Área Tiago Campin dos Santos, apontadas pelos camponeses como terras da União griladas.
A LCP qualifica o texto como “um monte de mentiras requentadas” e situa o JCO na engrenagem propagandística da extrema direita internacional subordinada ao imperialismo ianque e ao serviço secreto sionista Mossad. O veículo já foi denunciado por utilizar perfis apócrifos para atacar políticos, magistrados e desafetos do bolsonarismo.
Para a organização, a entrada desses agentes na campanha contra a luta pela terra comprova o fracasso das sucessivas ofensivas executadas pela reação em Rondônia: “Se nos atacam assim diretamente é porque seus lacaios fracassam sucessivamente em fazer o ‘serviço’”.
Braguin dispara contra a LCP e promete combater a ‘corrupção’
Outro agente destacado pela nota é o celerado Régis Braguin, ex-comandante-geral da PM-RO e atual candidato a deputado federal pelo Republicanos. Em sua propaganda eleitoral, Braguin aparece portando uma arma pesada e dispara contra alvos identificados com as siglas “CV”, “PCC” e “LCP”, equiparando uma organização camponesa a grupos ligados ao tráfico de drogas.
Ao apresentar-se como candidato, o ex-comandante afirma que agora enfrentará “o sistema” e “a corrupção”. A LCP responde que Braguin fez carreira como serviçal dos latifundiários e recorda que, à frente da PM-RO, reivindicou métodos de “contraguerrilha” contra “grupos armados” que associava à organização. “Quem é você, um verme, para acabar com a LCP e a Revolução Agrária?”, questiona a declaração.
A nota afirma possuir a cópia de um relatório reservado da PM-RO que registraria crimes e falcatruas praticados por Braguin. Segundo a LCP, o então comandante organizava escalas e folgas de policiais para que integrantes de seu grupo prestassem serviços de pistolagem a latifundiários, principalmente nas regiões de Ariquemes e Buritis. A organização acusa Braguin de receber dos latifundiários R$ 500 por dia para cada policial empregado, embora repassasse somente R$ 200 aos agentes.
A declaração relaciona ainda o ex-comandante ao chamado “bando do Jed”, utilizado em ataques contra as famílias da Área Tiago Campin dos Santos. Para a LCP, a posterior execução de integrantes desse grupo pela própria PM-RO constituiu uma “queima de arquivo” destinada a apagar os rastros das relações entre policiais, guaxebas, latifundiários e agentes do Incra.
Operação “Godos”: ataque nas sombras contra a luta camponesa
A repressão aberta do latifúndio e da extrema direita encontra prolongamento nas instituições do velho Estado. Em novembro de 2025, o governo de Rondônia desencadeou a Operação “Godos”, apresentada pelo Ministério Público como uma investigação criminal sem relação com a luta pela terra. O sigilo imposto ao processo e as prisões, perseguições e assassinatos que acompanharam a operação, contudo, levam a LCP a defini-la como uma ação de contrainsurgência – uma operação “Engodo”.
A Associação Brasileira dos Advogados do Povo – Gabriel Pimenta (ABRAPO) denunciou que o segredo de Justiça encobre a criminalização da advocacia popular e mantém Lenir Correia presa sem que tenha sido apresentado “um único fato concreto” capaz de justificar seu encarceramento. “O que o sigilo protege não é a intimidade de ninguém: protege a Operação GODOS”, afirmou a entidade. “O que pretende tal ‘operação’ é tentar impedir o contato, através da prisão de algumas lideranças e apoiadores da LCP, com as massas em luta”, denuncia a declaração.
Apesar dos mandados de prisão, assassinatos, ordens fraudulentas de despejo, perseguições a comerciantes e ataques às escolas frequentadas pelos filhos dos camponeses, a nota ressalta que todas as Assembleias Populares realizadas nas terras conquistadas reafirmaram a organização independente das famílias e o caminho da Revolução Agrária.
Incra-RO e as negociatas com terras
A LCP dirige outra grave denúncia ao superintendente regional do Incra em Rondônia, Luís Flávio Carvalho Ribeiro. Segundo a declaração, o dirigente do órgão retém processos de cadeia dominial e atua em conjunto com advogados, políticos, guaxebas e policiais corruptos para desviar terras públicas às mãos de latifundiários.
A organização acusa o superintendente de utilizar camponeses que desejam conquistar terra sem enfrentar grandes conflitos como fachada para o esquema. Em vez de assegurar definitivamente as parcelas às famílias, o Incra-RO prepararia indenizações fajutas para retirá-las posteriormente das áreas, enquanto os envolvidos receberiam comissões dos latifundiários. “Ele e seu esquema SÃO OS MAIORES VENDEDORES DE TERRA DE RONDÔNIA”, afirma a LCP.
A nota denuncia ainda a produção de cadastros falsos para enganar os camponeses e beneficiar políticos durante a campanha eleitoral. O mesmo modus operandi já havia sido apontado pela organização ao tratar das tentativas de expulsar as famílias da Área Tiago Campin dos Santos e das terras da antiga fazenda NorBrasil.
“A luta pela terra é uma guerra e a nossa Guerra é Sagrada!”
Depois de nomear os agentes dos ataques, a declaração situa a ofensiva no quadro da guerra secular pela terra no Brasil. A extrema direita, afirma, tem “sua principal base econômica, política e ideológica no latifúndio”. Embora empregue máquinas, sementes modificadas, defensivos e outras tecnologias de ponta na produção primária para exportação, o latifúndio conserva intacta a concentração da propriedade da terra e as velhas relações de exploração.
Essa estrutura constitui, segundo a LCP, a base econômica e social do capitalismo burocrático, entrava a revolução democrática e mantém a Nação subjugada ao imperialismo, principalmente ianque. Sobre ela ergue-se o aparelho estatal empregado durante séculos para esmagar as lutas dos povos indígenas, do povo preto, dos camponeses e dos demais trabalhadores: “Velho Estado genocida, corrupto desde a medula e em decomposição, cujas principais instituições não passam de verdadeiros sepulcros caiados como fachada ‘democrática’ desse secular sistema de opressão e exploração.”
A LCP recorda que o Brasil já atravessou sete Constituições, mediante as quais as classes dominantes repactuaram sua dominação, limitaram os direitos democráticos das massas e favoreceram a ingerência estrangeira. Os direitos e liberdades conquistados pelo povo resultaram de lutas duras e permanecem sob a ameaça de um Congresso cada vez mais reacionário.
Ao mesmo tempo, dezenas de milhões de famílias camponesas sem terra ou com pouca terra, povos indígenas e comunidades quilombolas avançam em sua mobilização e organização. Esse avanço, prossegue a nota, é retardado pelo oportunismo, que funciona como “camisa de força” sobre as massas, difunde ilusões reformistas e auxilia a contrarrevolução “na legitimação dessa velha ordem como se esta fosse democracia”.
“Boicotar a farsa eleitoral! Não votar!”
A denúncia do velho Estado desemboca diretamente na crítica às eleições. A LCP define a política oficial brasileira como “politicagem”, na qual representantes de diferentes siglas fingem defender o povo enquanto preservam o domínio dos grandes burgueses, dos latifundiários e do imperialismo.
A cada eleição, contudo, as massas aprendem com suas próprias penúrias. A declaração afirma que mais de 30% dos eleitores aptos a votar vêm boicotando sucessivos pleitos, seja pela abstenção, pelo voto em branco ou pela anulação. O segundo turno serviria para ocultar que presidentes e governadores são escolhidos por uma minoria e assumem governos marcados, desde o início, por pouca legitimidade e crise permanente.
“Este é o velho caminho burocrático que mantém nosso povo na miséria e no padecimento sem fim”, afirma a LCP. “O único caminho para a libertação do nosso povo é o verdadeiramente democrático, o da luta revolucionária.”
A organização conclama, por isso, ao boicote da farsa eleitoral e denuncia tanto a extrema direita bolsonarista quanto os liberais e a esquerda burguesa eleitoreira. Nenhuma dessas forças, afirma, enfrenta a questão da terra, problema que atinge milhões de camponeses obrigados a abandonar o campo, vender sua força de trabalho nas cidades e sobreviver com salários miseráveis.
Santa Elina vive na Revolução Agrária
A declaração foi publicada 31 anos depois da Batalha de Santa Elina, travada em 9 de agosto de 1995. Mais de 600 famílias haviam tomado as terras da antiga fazenda, em Corumbiara, quando tropas da PM-RO e pistoleiros recrutados pelos latifundiários desencadearam uma operação para esmagar a luta. Os camponeses resistiram durante horas e transformaram o que fora planejado como outra chacina impune numa batalha que marcou a luta pela terra no País.
Três décadas depois, quase toda a antiga fazenda Santa Elina foi conquistada pelas famílias. Para a LCP, o caminho aberto naquela batalha prossegue nas tomadas de terras, nas Assembleias Populares, na autodefesa das massas e na destruição do latifúndio parte por parte.
A declaração encerra-se com as consignas: “Viva a Revolução Agrária! Morte ao latifúndio! Terra a quem nela trabalha!”, “Viva os 31 anos da Resistência Camponesa Armada de Santa Elina!”, “Glória e honra eternas aos heróis e heroínas de Santa Elina!”, “Abaixo a extrema direita bolsonarista, os liberais e a esquerda burguesa eleitoreira!”, “Boicotar a farsa eleitoral! Não votar!”.
A redação de AND tentou contato com os citados pelas denúncias reproduzidas nesta matéria, mas não obteve resposta até o fechamento. O jornal permanece aberto à publicação dos posicionamentos que venham a ser enviados.